… Toco a tua boca…

 

… Com um dedo toco o contorno da tua boca.

Vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão…

Como se pela primeira vez a tua boca se entreabrisse…

E me basta fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar…

Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo… A boca que minha mão escolheu…

E, te desenho no rosto, uma boca eleita entre todas, como soberana liberdade, eleita por mim, para desenhá-la com minha mão em teu rosto, e que, por um acaso não procuro compreender.

Coincide exatamente com a tua boca que sorri debaixo daquela que a minha mão te desenha.

Tu me olhas de perto, nossas bocas se encontram e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua entre os dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem, trazendo-nos um perfume antigo e um grande silêncio.

Então, as minhas mãos procuram afogar-se nos teus cabelos… Acariciar lentamente o teu cabelo enquanto nos beijamos, como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, com movimentos vivos e fragrância obscura…

E, quando nos mordemos, até a dor é doce.

E, quando nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte também é bela…

E, já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madeira, e eu te sinto tremular contra mim, como o reflexo de uma lua na água…

 

Texto extraído do livro O Jogo da Amarelinha – Julio Cortázar

 

 

 

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