Traição x Perdão

Cresci ouvindo a célebre frase: devemos perdoar pra sermos perdoados. Principalmente quando se faz parte de uma família cristã. A partir daí, aparecem inúmeras histórias ilustrativas para dar um melhor embasamento ao referido pensamento.

Já vivenciei quase todas as etapas do amadurecimento humano, no entanto, ainda não consegui desenvolver o aprendizado “ideal” para a prática dos vários níveis de perdão, tendo em vista a diversidade de traições pelas quais já tive que passar…

Muitas vezes, quando falamos em traição, nos vem à mente a da traição entre cônjuges. Esquecemos da fidelidade entre amigos, filhos, parentes, parceiros, sócios, vizinhos, etc…  E, até que ponto, nos sentimos preparados para exercer as inúmeras manifestações de perdão?

Acredita a psicóloga junguiana Clarissa Pinkola Estés que, para lidarmos melhor com essas manifestações, precisamos dizer a nossa verdade, e não só a nossa dor e o nosso lamento, mas também o mau que foi causado, a raiva, a revolta e o desejo de autopunição ou de vingança que foi evocado em nós.

Para  entendermos melhor essa situação, ela sugere aos seus pacientes quatro estágios do perdão:

  1. Deixar passar  –  deixar a questão em paz
  2. Controlar-se    – renunciar à punição
  3. Esquecer         – afastar-se da memória, recusar-se a repisar
  4. Perdoar           – o abandono da dívida

Deixar Passar – Deixe a situação, a recordação, o assunto, tantas vezes quantas for necessário. A ideia não é a de fechar os olhos, mas a de adquirir agilidade e força para se desligar da questão. Deixar passar envolve voltar a tecer, a escrever, ir até o mar, aprender e amar algo que a fortaleça e deixar que o tema saia do primeiro plano por um tempo…

Controlar-se  –  A segunda fase é a do controle, especificamente no sentido de abster-se de punir; de não pensar no fato nem reagir a ele seja em termos grandes, seja em termos pequenos. Controlar-se significa ter paciência, resistir, canalizar a emoção. Esse é um regime de purificação. Você pode se abster de palavras, de resmungos punitivos, de agir de modo hostil, ressentido… Controlar-se é praticar a generosidade…

Esquecer  – Esquecer significa afastar da lembrança, recusar-se a repisar um assunto – em outras palavras, deixar de lado, soltar, especialmente da memória. O esquecimento consiste em deixar de lado o acontecimento, não insistir para que ele permaneça no primeiro plano, mas permitir que ele seja relegado ao plano de fundo ou mesmo que saia do palco…

Perdoar –  Existem muitos meios e proporções com os quais se perdoa uma pessoa, uma comunidade, uma nação por uma ofensa. É importante lembrar que um perdão “final” não é uma capitulação. É uma decisão consciente de deixar de abrigar ressentimento, o que inclui o perdão da ofensa e a desistência da determinação de retaliar…

O perdão é um ato de criação. Você pode escolher entre muitas formas de proceder. Você pode perdoar por enquanto, perdoar até que, perdoar até a próxima vez, perdoar mas não dar outra chace – começa tudo de novo se acontecer  outro incidente. Você pode dar só mais uma chance , dar mais algumas chances, dar muitas chances, dar chances só se… Você pode perdoar uma ofensa em parte, pela metade ou totalmente. Você pode imaginar um perdão abrangente. Você decide.