Quem me garante que Jó era paciente?

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Por anos a fio, ouvimos a célebre frase: fulano tem a paciência de Jó!

Os estudiosos dos livros bíblicos que me perdoem, mas confesso que não acredito que ele tivesse  toda essa paciência que lhe foi atribuída!

Me considero uma pessoa mais tolerante que paciente, pois a minha ansiedade taurina não permite me dar ao luxo de ficar esperando que as coisas aconteçam ao acaso. Normalmente eu procuro dar uma mãozinha  ao destino!   Isso vale para todas as situações do meu cotidiano. Seja no trabalho, com a família, com os amigos e, principalmente na área dos relacionamentos afetivos. Namorado com aquela”conversa mole”, comigo nunca se estabeleceu! Sempre tive olho clínico pra identificar se o cara estava a fim de um relacionamento mais sério ou só querendo “passar as férias de verão”. Risos.  Com aquele chove e não molha, diz que vem e não chega, nunca tive a menor paciência!  Nem tão pouco a de ficar ouvindo as constantes lamentações de amigas, falando sempre mal do emprego, do cônjuge, dos filhos e ou da cidade em que vive,  mas incapazes de tomarem qualquer decisão de mudança com relação a própria vida.

Acredito que todo passo que dermos na vida deve ser diretamente proporcional aos nossos objetivos. E, na maioria das vezes, a nossa covardia e o nosso medo de enfrentarmos os desafios nos impedem de irmos em frente, atrelados por demais às desculpas esfarrapadas que não convencem nem a nós mesmos, quanto mais aos outros com quem nos relacionamos. Haja paciência!

Toda paciência tem limite, né?  E há um limite onde a paciência deixa de ser virtude para se transformar em abnegação, em submissão, e até mesmo pode dar espaço para uma grande frustração! E qual é a minha força para que eu continue aguardando  o que não tem data marcada para acontecer? Nenhuma. Não tenho a menor vocação para esperar pelo indeterminado! O meu tempo é hoje, é o agora e a minha paciência é bem limitada! Não sou como Jó, isso posso assegurar!

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Traição x Perdão

Cresci ouvindo a célebre frase: devemos perdoar pra sermos perdoados. Principalmente quando se faz parte de uma família cristã. A partir daí, aparecem inúmeras histórias ilustrativas para dar um melhor embasamento ao referido pensamento.

Já vivenciei quase todas as etapas do amadurecimento humano, no entanto, ainda não consegui desenvolver o aprendizado “ideal” para a prática dos vários níveis de perdão, tendo em vista a diversidade de traições pelas quais já tive que passar…

Muitas vezes, quando falamos em traição, nos vem à mente a da traição entre cônjuges. Esquecemos da fidelidade entre amigos, filhos, parentes, parceiros, sócios, vizinhos, etc…  E, até que ponto, nos sentimos preparados para exercer as inúmeras manifestações de perdão?

Acredita a psicóloga junguiana Clarissa Pinkola Estés que, para lidarmos melhor com essas manifestações, precisamos dizer a nossa verdade, e não só a nossa dor e o nosso lamento, mas também o mau que foi causado, a raiva, a revolta e o desejo de autopunição ou de vingança que foi evocado em nós.

Para  entendermos melhor essa situação, ela sugere aos seus pacientes quatro estágios do perdão:

  1. Deixar passar  –  deixar a questão em paz
  2. Controlar-se    – renunciar à punição
  3. Esquecer         – afastar-se da memória, recusar-se a repisar
  4. Perdoar           – o abandono da dívida

Deixar Passar – Deixe a situação, a recordação, o assunto, tantas vezes quantas for necessário. A ideia não é a de fechar os olhos, mas a de adquirir agilidade e força para se desligar da questão. Deixar passar envolve voltar a tecer, a escrever, ir até o mar, aprender e amar algo que a fortaleça e deixar que o tema saia do primeiro plano por um tempo…

Controlar-se  –  A segunda fase é a do controle, especificamente no sentido de abster-se de punir; de não pensar no fato nem reagir a ele seja em termos grandes, seja em termos pequenos. Controlar-se significa ter paciência, resistir, canalizar a emoção. Esse é um regime de purificação. Você pode se abster de palavras, de resmungos punitivos, de agir de modo hostil, ressentido… Controlar-se é praticar a generosidade…

Esquecer  – Esquecer significa afastar da lembrança, recusar-se a repisar um assunto – em outras palavras, deixar de lado, soltar, especialmente da memória. O esquecimento consiste em deixar de lado o acontecimento, não insistir para que ele permaneça no primeiro plano, mas permitir que ele seja relegado ao plano de fundo ou mesmo que saia do palco…

Perdoar –  Existem muitos meios e proporções com os quais se perdoa uma pessoa, uma comunidade, uma nação por uma ofensa. É importante lembrar que um perdão “final” não é uma capitulação. É uma decisão consciente de deixar de abrigar ressentimento, o que inclui o perdão da ofensa e a desistência da determinação de retaliar…

O perdão é um ato de criação. Você pode escolher entre muitas formas de proceder. Você pode perdoar por enquanto, perdoar até que, perdoar até a próxima vez, perdoar mas não dar outra chace – começa tudo de novo se acontecer  outro incidente. Você pode dar só mais uma chance , dar mais algumas chances, dar muitas chances, dar chances só se… Você pode perdoar uma ofensa em parte, pela metade ou totalmente. Você pode imaginar um perdão abrangente. Você decide.

Canção das mulheres

Que o outro saiba quando estou com medo, e me tome nos braços sem fazer perguntas demais.
Que o outro note quando preciso de silêncio e não vá embora batendo a porta, mas entenda que não o amarei menos porque estou quieta.
Que o outro aceite que me preocupo com ele e não se  irrite com minha solicitude, e se ela for excessiva saiba me dizer isso com delicadeza ou bom humor.
Que o outro perceba minha fragilidade e não ria de mim, nem se aproveite disso.
Que se eu faço uma bobagem o outro goste um pouco mais de mim, porque também preciso poder fazer tolices tantas vezes.
Que se estou apenas cansada o outro não pense logo que estou nervosa, ou doente, ou agressiva, nem diga que reclamo demais.
Que o outro sinta quando me dói a ideia da perda, e ouse ficar comigo um pouco – em lugar de voltar logo à sua vida, não porque lá está a sua verdade mas talvez seu medo ou a sua culpa.
Que se começo a chorar sem motivo depois de um dia daqueles, o outro não desconfie logo que é culpa dele, ou que não o amo mais.
Que se estou numa fase ruim o outro seja meu cúmplice, mas sem fazer alarde nem dizendo ” olha que estou tendo muita paciência com você!”
Que se me entusiasmo por alguma coisa o outro não a diminua, nem me chame de ingênua, nem queira fechar essa porta necessária que se abre para mim, por mais tola que lhe pareça.
Que quando sem querer eu digo uma coisa bem inadequada diante de mais pessoas, o outro não me exponha nem me ridicularize.
Que quando levanto de madrugada e ando pela casa, o outro não venha logo atrás de mim reclamando: ” Mas que chateação essa mania, volta pra cama!”
Que se eu peço um segundo drinque no restaurante o outro não comente logo: “Poxa, mais um?”
Que se eu eventualmente perco a paciência, perco a graça e perco a compostura, o outro ainda assim me ache linda e me admire.
Que o outro – filho, amigo, amante, marido – não me considere sempre disponível, sempre necessariamente compreensiva, mas me aceite quando não estou podendo ser nada disso.
Que, finalmente, o outro entenda que mesmo se às vezes me esforço, não sou, nem devo ser, a mulher-maravilha, mas apenas uma pessoa: vulnerável e forte, incapaz e gloriosa, assustada e audaciosa – uma mulher.

Extraído do livro Pensar é transgredir – Lya Luft